Perdão

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Perdão

Veronice Ayala

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          O Senhor Jesus falou aos seus discípulos sobre o perdão, contando a parábola do servo impiedoso que, mesmo tendo recebido perdão para sua dívida, não perdoou o seu conservo. Enquanto devedor recebeu compaixão do seu credor e, como credor, retribuiu com crueldade para seu devedor. (Mateus 18: 21 a 35)
Recebi a visita de minhas duas irmãs mais velhas do que eu, na semana passada. Elas não são gêmeas, mas são duas porque minha mãe se casou duas vezes; então uma é a mais velha dos meus meio irmãos e a outra dos meus irmãos inteiros. Ou seja, do primeiro casamento e do segundo.
Há muito tempo, anos que não sei contar, elas não se encontravam; eventualmente se cumprimentavam por telefone e aproveitavam a chance de se perguntarem sobre família, saúde e essas outras coisinhas impostas pelas regras sociais, mas que nem sempre traduzem o desejo e interesse das pessoas.
Vai daí que coagidas pelo tempo e circunstância desse encontro meio inesperado, começaram a conversar, no princípio um pouco devagar, mas com o movimento das horas, dos dias e das noites, em que estivemos juntas, a conversa foi se impondo de tal modo que não puderam evitar lembranças antigas, não apenas de momentos alegres, mas, também de alguns doloridos para minha irmã mais nova, porque eram da infância.
          Conversaram, riram e choraram ao descobrirem a vida de nossa família: pais, irmãos, filhos, sobrinhos, cunhados, genros, noras, netos, padrasto, ninguém escapou da organização dessa história familiar. Analisaram o presente em função do passado, explicando e concluindo sobre mudanças necessárias.
          Minha irmã mais nova é minha irmã por parte de pai e mãe e é minha irmã mais velha porque sou a filha do meio. Pertenceu à geração rebelde e contestadora dos anos setenta e talvez também por isso lhe seja um tanto difícil aceitar algumas convenções. Carrega com ela uma bagagem grande demais para sua fragilidade física, emocional e espiritual, da qual fazem parte desgostos, tristezas e muitas mágoas tão antigas que já poderiam ter se tornado pó.
         “Bem aventurados os limpos de coração porque verão a Deus”. Refleti sobre essa linda verdade do sermão de Jesus observando, ouvindo e participando da conversa de minhas irmãs e pensei que muitas vezes desejamos ardentemente ser perdoados; por Deus e também por aqueles que magoamos, intencionalmente ou não.
         Talvez seja mais simples e fácil do que dizemos ser, falarmos com Deus, porque de antemão sabemos de sua misericórdia e bondade. Mas nós, os seres humanos, temos muita dificuldade para perdoar, porque as mágoas, as dores sentidas, as perdas, a humilhação sofrida, a auto- piedade podem ser muito densas para serem dissolvidas e esquecidas num simples gesto e num pequeno instante.
         Dependemos totalmente do Senhor para vivenciarmos o perdão, essa maravilhosa graça que Ele nos concede e que também por intermédio dele podemos conceder.

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