Dois Anos e suas Tanatologias: 1963 e 2011

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por Fabrício V. Batistoni

 A Tanatologia de 1963 [1]

Precisamente no dia 22 de novembro de 1963, três grandes homens morreram com intervalo de poucas horas um do outro: C. S. Lewis, John F. Kennedy e Aldous Huxley.  O primeiro era irlandês de nascimento, tendo passado a maior parte da sua vida na Inglaterra. Os demais eram americanos.

Lewis e Huxley eram escritores. Suas obras influenciaram sua geração. Lewis é famoso por sua série As Crônicas de Nárnia, sua Trilogia Espacial e outros de caráter teológico-filosófico. Publicado em 1932,  Admirável Mundo Novo (Brave New World na versão original em língua inglesa) é a apoteose de Huxley.

John F. Kennedy foi eleito aos 43 anos de idade 35.º Presidente dos Estados Unidos numa eleição disputadíssima com Richard Nixon, com uma diferença de 0,2% de votos. Muitos atribuem a vitória de Kennedy a forma como aparecia na recente televisão, o carisma e a jovialidade eram passados com convicção. Durante a pré-campanha para sua reeleição foi assassinado em carro aberto num desfile ao lado da sua esposa Jackie Kennedy.

Todos estes personagens criam, de diferentes maneiras, que a morte não representava o fim da vida humana. Estes três homens representam as três filosofias de vida mais importantes de sua época: o antigo teísmo ocidental (Lewis), o moderno humanismo ocidental[i] (Kennedy) e o antigo panteísmo oriental (Huxley).

Estes três homens representavam também as três versões mais influentes do cristianismo em nossa cultura moderna: o cristianismo tradicional, mais disseminado ou ortodoxo (que Lewis chamava de cristianismo puro e simples ou “mero cristianismo”), o cristianismo moderno ou humanístico (Kennedy), e o cristianismo orientalizado, ou místico (Huxley).

Lewis aceitava o cristianismo de forma pura, ou simples. Ao invés de reinterpretá-lo à luz de qualquer outra tradição, antiga ou moderna, oriental ou ocidental, ele interpretava essas tradições à luz do cristianismo. Assim, a exemplo dos filósofos cristãos medievais, ele usava muito da antiga cultura ocidental, especialmente Platão e Aristóteles, para firmar sua apologética cristã.

Kennedy, conquanto não fosse um filósofo ou teólogo, provavelmente era, de forma geral e vaga, um cristão humanista, no sentido em que esse termo foi definido atrás. Embora não expressasse publicamente suas convicções religiosas pessoais (o que é, em si, uma atitude mais humanista que tradicional: confinar a religião à vida particular), temos provas suficientes para o classificarmos como tal.

O fato de ser Lewis protestante (anglicano) e Kennedy católico é irrelevante aqui. Cristãos tradicionalistas e modernistas podem ser encontrados nas duas igrejas, e as diferenças existentes entre eles é muito mais importante do que a diferença entre o protestantismo e o catolicismo.

Nosso terceiro homem, Aldous Huxley, expressou suas crenças religiosas mais profundas em uma antologia de sabedoria mística, The Perennial Philosophy (“A Filosofia Perene”), embora seja mais conhecido pelos romances que escreveu. Como Kennedy, ele às vezes usava categorias cristãs para conter uma substância diferente, ao invés de fazer como Lewis, que usava categorias gregas ou modernas para conter substância cristã. No caso de Huxley, a substância era o panteísmo, e ele reinterpretou o cristianismo como uma forma de filosofia universal, “perene”, do panteísmo.

 

[1] Bibliografia:

Peter Kreeft, O Diálogo, Mundo Cristão, 1986.

http://pt.wikipedia.org/wiki/John_F._Kennedy

http://pt.wikipedia.org/wiki/Aldous_Huxley

http://pt.wikipedia.org/wiki/Brave_New_World_(romance)

David Downing, C. S. Lewis: o Mais Relutante dos Convertidos, Ed. Vida.

 

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