Dois Anos e suas Tanatologias: 1963 e 2011

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A Tanatologia de 2011

Julho de 2011 também ficará marcado como o mês da morte de duas personalidades (coincidentemente inglesas). No dia 23 de Julho morre em Londres a cantora Amy Winehouse, aos 27 anos. Alguns dias depois, em 28 de Julho de 2011 morre John Stott, um dos maiores teólogos e escritores cristãos da atualidade, aos 90 anos.

Considerada a responsável pelo ressurgimento da soul music – que perdera lugar para o pop louco e para a discomusic – em 2003, uma nova cantora, simples e sem aspirações de diva trouxe de volta as paradas o soul. Com sua voz grave e seu estilo eclético, Amy Winehouse, de 27 anos, foi comparada a cantoras de peso, como Nina Simone e Sarah Vaughn [BBC].

Numa carreira explosiva, Winehouse ganhou 22 premiações das 29 indicações que teve durante sua carreira. Sua escalada de sucesso que já havia lhe rendido US$ 33 milhões. Tanto para fazer músicas, uma expertise que, a despeito de todas as polêmicas que a envolviam, ajudou a vender mais de 12 milhões de discos e a acumular cinco prêmios Grammy, quanto para vender produtos. O sucesso transformou-a em diva e it girl (categoria de mulheres que têm o dom de influenciar muitas outras, com seu estilo de vida e seu guarda-roupa) da noite para o dia. Essa capacidade foi capitalizada pela marca britânica de roupas esportivas, Fred Perry, que a convidou para desenhar uma linha de roupas, no ano passado. A cantora criou vestidos, blusas, saias e acessórios inspirados em seu próprio estilo, identificado principalmente por um indefectível penteado armado no alto da cabeça e olhos marcados pelo uso abundante de delineador.

John Stott nasceu em 1921. Cresceu na igreja All Souls – no coração financeiro de Londres – e dedicou mais de 60 anos de seu ministério a ela. Ele estabeleceu a reputação da igreja como uma comunidade dinâmica e evangélica dentro da igreja da Inglaterra, com um compromisso sólido na Pregação e o Ensino Bíblico como algo claro, vivo e relevante. Foi indicado como pároco de All Souls bem no final da Segunda Guerra mundial. Em 1950 foi nomeado diretor, na surpreendente idade de 29 anos. Os diretores de All Souls eram nomeados pela coroa inglesa e John Stott trabalhou muitos anos como um dos capelães da rainha Elizabeth II. Do púlpito de All Souls, Stott pregou sistematicamente sobre muitos livros da Bíblia e fixou um padrão de exposição bíblica que influenciou o mundo inteiro. Dos seus sermões também retirou material para seus muitos comentários publicados e outros livros. Escreveu mais de 40 livros.

Stott enxergou em primeira mão o fenomeno do crescimento explosivo da igreja nos continentes do sul e do extremo oriente. Mas também observou que este crescimento não tinha profundidade – quer dizer, era um crescimento numérico mas não em maturidade. Encabeçou várias iniciativas para capacitar os líderes destas novas igrejas, estabelecendo escolas internacionais, cursos a distância e doação de material didático. Todos os direitos autorais dos livros de Stott são direcionados para a Langham Literature, uma fundação criada para oferecer literatura para líderes em países em desenvolvimento. Foi nomeado uma das 100 pessoas mais incluentes do mundo pela revista Times em 1995.

Assim como a morte do trio de 63 nos faz refletir sobre a secularidade, a espiritualidade e a alienação, creio que a morte desta dupla de Julho de 2011 nos faz refletir sobre vocação e desejo.

Nenhum de nós chega no mundo completo e nenhum de nós é sábio e forte suficiente para criar-nos por nós mesmos. Nós crescemos e amadurecemos em resposta ao que está dentro e for a de nós. Antes da “morte de Deus” este era o pensamento predominante. Celebrada como a libertação do homem da tirania da religião estas filosofias antropocêntricas acabaram por dar a luz a uma geração cujo principal objetivo na vida é ser feliz. Inclusive há até um projeto de Lei no Congresso Brasileiro chamado PEC da Felicidade de autoria do Senador Cristóvam Buarque que altera o art. 6º da Constituição Federal para incluir o direito à busca da felicidade por cada indivíduo e pela sociedade.

De acordo com esta filosofia antropo-centrada (chamo filosofia todas estas idéias que estão difundidas nas artes, na política, na religião e não pode ser rotulada isoladamente) o fim principal do homem é a busca da sua própria felicidade. Qual a relação de John Stott e Amy Winehouse com este espírito da nossa época?

John Stott foi um homem entusiasmado por Jesus Cristo. Essa relação pessoal com o Senhor começou em fevereiro de 1938 quando Stott abriu seu coração para Jesus, com a idade de 17 anos. Para ele, Jesus “é o nosso destino e também o nosso predecessor, nosso acompanhante e a nossa senda”. Em Jesus, a cruz deixa de ser símbolo de uma forma de execução para ser símbolo do evangelho da salvação. O símbolo do cristianismo poderia ser a manjedoura (para salientar a encarnação), a carpintaria (para salientar a dignidade do trabalho manual), ou a toalha (para salientar o serviço humilde). No entanto, esses símbolos foram ignorados em favor da cruz!

Os livros de Stott são absolutamente Cristo-cêntricos. Christopher J.H Wright, Diretor da Langham Partnership International cita uma frase que demonstra bem o caráter de John: “Deus permita que me glorie somente na Cruz do Senhor” (grifo meu).

O maior competidor da devoção à Jesus é o serviço prestado a Ele. Nós amamos nosso trabalho e, virtualmente, adoramos o que fazemos, mas corremos o risco de retirar Jesus do centro daquilo que fazemos. Colocamos a ênfase no serviço, ou na utilidade, ou na produtividade para o Reino de Deus – as custas de que? Não fazemos isto para provar nossa própria importância no Reino? Para mostrar nossa própria capacidade de fazer diferença no mundo?

Stott sabia que nós não somos chamados primariamente para fazer alguma coisa  ou ir para algum lugar; nós somos chamados para Deus. A chave para a compreensão da nossa verdadeira vocação é nos envolver num profundo relacionamento com o próprio Deus. Quando nosso desejo se alinha ao chamado de Deus, a jornada da nossa vida é endireitada. (Is 40:3; Mt 3:3; Mc 1:3; Lc 3:4; Jo 1:23)

No entanto, quando desejo e vocação traçam rotas por caminhos distantes de Deus, nossa jornada passa a ser marcada por confusão e desespero. “O workaholic, como o alcoólatra, é indiscriminado na sua compulsão. Ele tenta buscar significância pelo trabalho.”

O Budismo trata a questão do desejo no enunciado básico de seu fundador:

1.       A vida é sofrimento.
Ter o que não se quer ter, e não ter o que se quer ter, isso é sofrimento.

2.       A causa do sofrimento é o desejo.
Lit. tanha: ambição, vontade, egoísmo

3.       A maneira de acabar com o sofrimento é eliminar o desejo.
Tal estado é o Nirvana (extinção)

4.       A maneira de eliminar o desejo é o  caminho da redução do ego.

Pode-se pensar que é possível extinguir o desejo ao alcançar o objeto desejado. No entanto, não é o objeto desejado que causa o sofrimento, mas o desejo em si. No seu quarto ponto o budismo nos convida a deixar de desejar – na prática, porém, nem o próprio Sidarta Gautama (Buda) alcançou plenamente este estado.

Amy Winehouse não era budista. Nasceu em uma área suburbana de Southgate, bairro de Londres, numa família judia de quatro pessoas e de tradição musical ligada ao jazz. Seu pai, Mitchell Winehouse, era motorista de taxi e sua mãe, Janis, farmacêutica. Amy tinha ainda um irmão mais velho, Alex Winehouse. Ela cresceu em Southgate, onde fez os estudos na Ashmole School.

Bem antes de seu sucesso na mídia seu histórico com drogas e álcool já era um problema. No Jornal do Brasil é possível encontrar uma sequência de fotografias que mostram como o abuso de entorpecentes fez com que Amy, aos 27 anos parecesse uma pessoa velha e cansada (http://www.jb.com.br/cultura/noticias/2011/07/28/amy-winehouse-e-as-drogas-no-mundo-do-rock-por-que-alguns-sobrevivem).

Sua morte, na expressão do jornalista Marcos Losekann (ao vivo na GloboNews) era uma tragédia anunciada.

Amy foi um gênio da música. Mas não era feliz. Amy teve tanto dinheiro que podia escolher qualquer tipo de droga para se desligar do desejo… mas sempre que o efeito passava, o desejo voltava….

Preciso concluir esta breve reflexão, e não posso fazê-lo sem citar dois pregadores. Um do cânon Bíblico e outro do cânon da Literatura universal.

“Ele fez tudo apropriado ao seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim ele não consegue compreender inteiramente o que Deus fez.” Eclesiastes 3:11

“Todo Homem carrega dentro de si um vazio do tamanho de Deus” Dostoievsky


BIBLIOGRAFIA ADICIONAL:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/07/110723_amy_winehosue_obituario_mdb.shtml

http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/61865_O+LEGADO+DE+AMY+WINEHOUSE

http://iliber-iliber.blogspot.com/p/amy-winehouse-ressuscitou-o-soul-das.html

http://noticias.gospelmais.com.br/john-stott-morreu-aos-90-anos-maiores-teologos-escritores-22755.html

Os Guinness, The Call, Finding and Fulfilling the Central Purpose of Your Life, Word Publishing, 1998

Peter Kreeft, Buscar Sentido no Sofrimento, Loyola,

Revista Ultimato, Edição 323, Março-Abril 2010

 


 

[i] Uma palavra de explicação sobre o termo humanismo. Ele pode ser usado de três maneiras diferentes. (I) Em seu sentido mais lato, como herança da Grécia e Roma antigas, significa a importância e valor do Homem, especialmente em oposição à Natureza. Neste sentido, ele não apenas é compatível com o teísmo bíblico tradicional, como é um ingrediente dele. (2) Em seu sentido mais restrito, como produto do secularismo e ateísmo modernos, especialmente desde a Revolução Francesa, ele significa o Homem tomando o lugar de Deus. Neste sentido, ele não apenas é incompatível com o teísmo como também passa a ser seu maior inimigo. (3) Entretanto, esse termo também é usado com freqüência em um terceiro sentido, situado entre os dois primeiros, e que é também distintamente moderno: dá mais ênfase ao Homem do que a Deus; á atividade social “horizontal” mais do que à experiência religiosa vertical; e à religião sem revelação, sem o sobrenatural, dogma, milagres, mistério ou autoridade. É neste último sentido que o usamos aqui.

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