Ester – Compromisso e Sacrifício

0
1482

Sermão pregado na Igreja Presbiteriana do Parque Xangrilá no dia 09 de Agosto de 2015  |  Visualizar slides

A história da rainha Ester é notável. Tem a atmosfera lendária das 1001 noites à mistura com o cheiro penetrante das câmaras de gás de Hitler. E embora o nome de Deus não apareça uma só vez no livro de Ester, a Sua presença é evidente em cada página.

Ester apareceu na cena, depois de outra mulher, a rainha Vasti, ter saído do cenário real. Ester era a esposa de Xerxes, o poderoso rei da Pérsia, que reinava sobre 127 províncias da Índia à Etiópia em 475 A. C.. O seu palácio real de inverno era em Susã, cerca de 320 quilômetros a leste da Babilônia. Possuía pavimentos e pilares de mármore donde pendiam cortinas brancas, verdes e azuis, que eram presas com cordões de linho fino.

A família real e os seus hóspedes reclinavam-se em canapés de ouro e prata. Durante as festas as pessoas bebiam em taças de ouro, dos quais não havia dois iguais.

Ester, uma bela jovem com um coração dócil, tinha conquistado todos do palácio. Não era persa, mas uma órfã judia que havia sido criada pelo seu primo Mordecai, um exilado de Jerusalém. Ele cuidou dela como se fosse seu pai, e ela obedecia-lhe como filha, mesmo já sendo rainha.

Mordecai, que servia a corte real, era odiado pelo chanceler do rei, Hamã, um amalequita. Hamã era brilhante, ambicioso e violento. O rei respeitava muito suas opiniões e ordenou a todos os servos da corte real que se inclinassem diante dele. Mordecai foi a única pessoa que recusou fazer isso. Porque ser judeu, ele só se poderia curvar diante de Deus.

Hamã estava tão irado com esta recusa, que decidiu matar Mordecai e todos os outros judeus no grande império persa. Concebeu um plano tão sutil e seguro, que nenhum judeu conseguiria escapar. Todos seriam apanhados na rede que ele estava a lançar. A aniquilação total dos judeus – o povo de Deus – foi anunciada. A assinatura do rei tornava possível a Hamã varrê-los do globo para sempre. Os correios reais serviram-se dos animais mais rápidos e correram por todos os cantos do império imenso a anunciar a iminente calamidade. Os judeus ficaram abalados e aterrorizados.

Ester estava casada há cinco anos. A pedido de Mordecai, ela tinha permanecido silenciosa quanto à sua origem judaica, mas ele conservava-a diariamente informada a respeito da situação. Com o horrível extermínio dos judeus à vista, Mordecai achou que a única solução era a intervenção de Ester.

“Vai ter com o rei teu marido e pede-lhe a sua ajuda para salvar o teu povo”, ordenou ele a Ester. O teu povo! Isso significava que ela tinha de revelar a sua origem judaica. Como é que iria reagir o rei? Acharia ele que havia sido enganado? Odiaria a raça dela como Hamã e tantos outros odiavam?

Existia outro obstáculo. Ninguém estava autorizado a apresentar-se diante do rei sem ser chamado, nem mesmo a rainha. Fazer isso significaria arriscar a sua vida. Ela não tinha qualquer garantia de que ele ainda a amasse como antes.

Ela disse a Mordecai que não era chamada ao rei durante trinta dias. Ele persistiu, dizendo que ninguém mais poderia intervir. “Não imagines que escaparás à morte. Não interessa que sejas rainha. Todos os judeus morrerão, jovens e velhos. Nenhuma mulher ou criança será poupada”, disse ele. “Porque se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para tal conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?”

A resposta de Deus estava pronta. Ele não a executou através duma intervenção sobrenatural. Nenhum milagre da natureza, nenhum anjo, salvaria o Seu povo. Em lugar disso, seria uma fraca mulher. O futuro do povo de Deus raras vezes havia estado suspenso por um fio tão fino. Iria este plano ser bem sucedido? Iria a rainha cooperar com o plano de Deus ou não?

Deus usa um instrumento, Ester, um ser humano. Você está pronto para dar a sua vida? A solução de Deus também é você. Ester não recebeu a mensagem de Deus por meio das palavras autoritárias de um profeta estabelecido, que dissesse: “Assim diz o Senhor”. Não recebeu qualquer visão celestial. Foram as palavras de seu pai que serviram de despertamento. Ela aceitou as palavras de Mordecai como palavras de Deus.

A jovem Ester, que sempre havia revelado um comportamento dócil e afável, mostrava agora que era feita da fibra dos heróis. A crise iminente revelou seu compromisso com Deus: Ela estava disposta a submeter a sua vida aos Seus planos. Desejava fazer a vontade de Deus. “Vai, ajunta todos os judeus que se acharem em Susã”, disse ela, “e jejuai comigo e com as minhas moças durante três dias e três noites”.

Finalmente ela decidiu revelar sua identidade como parte do Povo de Deus. (1) Convocou um jejum (que pressupõe oração). (2) Reconheceu que sozinha não poderia mudar nada. (3) O auxílio só podia vir do Senhor, o Deus de Israel.

Pensando nisso, esteve na presença de Deus em oração durante três dias e três noites. Ester estava profundamente consciente de que precisava da orientação de Deus. Queria estar segura que a missão recebida estava sob a orientação dEle. Sabia que Deus Se revelava na resposta à oração e precisava de sabedoria e coragem para agir de modo adequado. E quem melhor para pedir conselho senão Àquele que é Fonte de toda a sabedoria?

“E assim irei ter com o rei, ainda que não é segundo a lei; e, perecendo, pereço”. Esta jovem mulher estava pronta a arriscar a sua posição, a vida e futuro pelo seu povo.

Depois dos dias de oração, Ester preparou-se e foi ao rei, que, aparentemente, estava ocupado com os assuntos do reino. Quando ele a viu, o seu coração foi tocado. Estendeu o seu cetro de ouro para ela, como prova de que a sua vida estava salva. E perguntou: “Qual é o teu pedido, rainha Ester? E te será dado”.

A primeira parte da sua oração fora respondida. A sua vida fora poupada. E Deus havia deixado entreaberta a porta da salvação para o Seu povo. Ela não tinha orado em vão por sabedoria, apesar de tudo. Sentiu que esta não era a ocasião nem o lugar próprio para o seu pedido urgente. O seu discernimento quanto a esta situação revela que era uma mulher sábia, com perfeito domínio das suas emoções, e uma pessoa que não precisava fazer decisões apressadas. Era também uma mulher que reconhecia muito naturalmente que o caminho para o coração do homem passa muitas vezes pelo estômago. Convidou o rei para uma refeição, juntamente com Hamã.

Durante a refeição, o rei perguntou-lhe outra vez: “Qual é a tua petição? E te será dada”. Ester avançava cuidadosamente, passo a passo, dependendo de Deus. Bem no seu coração, sentia que ainda precisava ganhar tempo. Não tinha chegado ainda o tempo de Deus. “Voltem juntos amanhã”, pediu ela. E isso provou que era Deus quem estava a orientá-la.

Nessa noite, o rei não conseguiu dormir. Um cortesão leu-lhe de um livro de crônicas do seu povo. Fatos importantes que haviam permanecido na sombra vieram à luz. Eles encaixavam-se no conjunto do plano de Deus. Algum tempo antes, Mordecai havia revelado uma conspiração contra o rei e, desse modo, salvara a vida do rei. Mas Mordecai nunca tinha sido recompensado. Esta negligência tinha de ser corrigida. Hamã, o homem que tinha levantado uma forca de 27 metros de altura, perto da sua casa com a intenção de enforcar Mordecai, foi incumbido de lhe dar a recompensa.

No dia seguinte, durante a refeição, Ester revelou o seu pedido. De modo comovente, suplicou ao rei pela vida do seu povo. E pela sua própria vida: “Se ainda por servos e por servas nos vendessem, calar-me-ia”, disse ela.

Seu discernimento e maneira de abordar o assunto mereceu o respeito do rei. Conseguiu convencê-lo. “Quem é esse? E onde está esse, cujo coração o instigou a fazer assim?”, foi a resposta estupefata do rei. O dedo de Ester apontou para Hamã, um dos seus hóspedes, e o súdito mais importante: “Foi esse homem ímpio aí – Hamã”, respondeu ela.

Então tudo se tornou claro. A forca que havia sido levantada perto da casa de Hamã esperava pela execução de Mordecai, mas o rei mudou esse plano. “Enforcai Hamã na forca que fora levantada para Mordecai”, ordenou o rei. E assim se fez.

A esposa e os sensatos amigos de Hamã tinham razão. Haviam-lhe dito: “Se este Mordecai é um judeu, não prevalecerás contra ele. Pelo contrário, irás certamente cair perante ele”. Hamã teria sido prudente se aprendesse com a história dos seus ancestrais, os amalequitas. Deus os rejeitou, por eles serem contra o Seu povo (Êx. 17:8-16; Dt. 25:17-19). Hamã descobriu que o ódio é uma emoção muito perigosa, que geralmente se vira contra a pessoa que o abriga.

Ester havia salvo não só a sua vida, mas também as vidas da sua raça inteira. O Novo Testamento diz que os cristãos brilharão como luzes neste mundo, como estrelas cintilantes na noite (Filip. 2:15). Ester foi uma estrela assim, que é precisamente o significado do seu nome “estrela”.

As palavras do seu marido para a extinção dos judeus eram tão poderosas que não podiam ser simplesmente retiradas. Era necessária uma ordem oposta. “Escreve o que te parecer bem a respeito dos judeus”, disse-lhe o rei. “Eu assinarei e selá-lo-ei com o meu anel”.

A heroína que havia salvo os judeus, arriscando a sua própria vida, recebeu o privilégio de lhes dar tão maravilhosas notícias! Em vez de ser uma mulher atrás dos bastidores, havia-se tornado uma pessoa de importância. As suas palavras pesariam muito dali em diante.

A boa nova chegou antes da data do assassínio em massa. Deus tratou disso. O dia que Hamã tinha marcado no calendário para ser um dia de tristeza, tornou-se num dia de alegria. Muitos não-judeus tornaram-se judeus, porque estavam tão profundamente impressionados com o que tinha acontecido. Queriam estar do lado do Senhor.

O dia de alegria tornou-se um dia de comemoração. A festa do Purim foi instituída. Nesta festa, ainda hoje os judeus em todo o mundo lembram o que a rainha Ester fez por eles. Todos os anos, quando o Purim é celebrado, os judeus lêem o Livro de Ester. Ela é grandemente honrada. O Talmude parece mesmo preferir este livro aos Salmos e aos Profetas.

Trinta anos mais tarde, Neemias reedificaria os muros de Jerusalém. Isto aconteceria de qualquer forma – com ou sei a participação de Ester. Afinal, Deus é soberano. No entanto, Ester deixou sua marca na história e. Por causa do seu sacrifício e sua coragem, abriu caminho para o surgimento do Messias.

Ester preparou o caminho, desconhecido para ela, para a vinda de Cristo. Através dela, Deus mostrou também que a Sua direção está ao dispor dos Seus seguidores para fazerem decisões. Estas decisões devem ser baseadas na Palavra de Deus (Jo. 14:21), testadas pela oração (Tg. 1:5) e pelo conselho dos outros (Prov. 15:22), dependendo duma certeza íntima (1 Jo 3:21) e de portas abertas por Deus (Apoc. 3:7,8).

Ester, uma rainha que arriscou a vida pelo seu povo

Perguntas:

1.   O que é que mais o impressionou a respeito do caráter e da atitude de Ester perante a vida?

2.   Repita nas suas próprias palavras o conteúdo de Ester 4:14.

3.   Considere o seu apelo ao jejum à luz de Esdras 8:23 e Daniel 9:3. Que é que pode aprender com isso?

4.   Qual é a prova de que Ester arriscou expressamente a vida pelo seu povo?

5.   Descreva o que aconteceu ao povo como resultado da sua intervenção.

6.   Estude a dedicação de Ester à luz de Ezequiel 22:30. Quais são as suas conclusões?

7.   O que é que esta história lhe ensinou acerca da direção de Deus?

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here