A tensão entre o “já” e o “ainda não”

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Temos visto que aquilo que caracteriza especificamente a escatologia do Novo Testamento é uma tensão subliminar entre o “já” e o “ainda-não”. O crente, assim ensina o Novo Testamento, já está na era escatológica mencionada pelos profetas do Antigo Testamento, mas ainda não está no estado final. Ele já experimenta a presença do Espírito Santo em si, mas ainda espera por seu corpo ressurrecto. Ele vive nos últimos dias, mas o último dia ainda não chegou.
Em capítulos anteriores, tocamos nesta tensão de várias maneiras. Vimos que o Novo Testamento expressa esta tensão em sua doutrina das duas eras: a era presente e a era vindoura. Percebemos que a compreensão da história que subjaz ao Novo Testamento implica na existência desta tensão: continua havendo duas correntes de desenvolvimento na história – a do Reino de Deus e a do reino do mal. O próprio Reino de Deus, na verdade, só pode ser entendido à luz desta tensão, como sendo uma realidade tanto presente como futura.
O papel do Espírito Santo na escatologia lustra mais a tensão entre o que já somos e o que esperamos ser. Observamos isto especialmente em conexão com conceitos tais como nossa filiação, o Espírito como primícia, e o Espírito como penhor e selo.
Na verdade, é impossível entender a escatologia Neotestamentária à desta deste tensão. A tensão entre o já e o ainda-não está implícita nos ensinos de Jesus. Porque Jesus ensinou que o Reino de Deus é tanto presente como futuro, e que a vida eterna é tanto uma possessão presente como uma esperança futura. Esta tensão mais tarde, também permeia os ensinos do Apóstolo Paulo. Para estes Apóstolo, a vida de Jesus se autorevela no tempo presente em nossa carne mortal (2ª Co 4:10,11), mas a presença desta vida nova é provisória e imperfeita, de modo que podemos referi-la tanto dela revelada, como podemos falar dela como escondida (Cl 3:3; Rm 8:19,23). Por causa disso, às vezes, Paulo escreve acerca da morada presente do Espírito numa linguagem alegre e triunfante (Rm 8:9; 2ª Co 3:8), enquanto que outras vezes ele fala acerca do crente gemendo intimamente e anelando por coisas melhores (Rm 8:23; 1ª Co 5:2) [1].
Esta tensão também é mencionada nas Epístolas não-paulinas. O autor de Hebreus contrasta a primeira vinda de Cristo com a segunda:

“Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação.” (9:28)

Pedro conecta a ressurreição de Cristo com nossa esperança futura:

“[…] que nos regenerou para uma viva esperança mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros.” (1ª Pe 1:3,4)

E João realça o contraste entre o que somos agora e o que deveremos ser:

“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é.” (1ª Jo 3:2)

Contrariamente à opinião de alguns, esta tensão entre o já e o aindanão é também encontrada no livro de Apocalipse. Embora uma discussão mais completa deste livro seja fornecida mais adiante, podemos notar aqui que nem uma visão exclusivamente preterista deste livro, nem uma exclusivamente futurista lhe faz jus completamente. A visão preterista afirma que maior parte do que é encontrado no livro de Apocalipse ou já tinha acontecido à época em que o livro foi escrito, ou estava para acontecer logo após seu surgimento. A visão futurista, ao contrário, sustenta que a maior parte do que está no livro não somente era futuro quando o livro foi escrito mas, mesmo hoje, ainda não aconteceu. Nenhuma destas posições leva em conta a tensão já-ainda-não, que permeia o livro inteiro. O livro do Apocalipse se refere tanto ao passado como ao futuro. Ele constrói sua expectação pelo futuro sobre a obra que Cristo fez no passado. Entre as várias referências do livro à vitória que Cristo conquistou no passado, podemos citar as seguintes: 1:18; 5:5-7,9,10; 12:1-5,11. Entre as referências deste livro à segunda vinda de Cristo encontram-se as seguintes: 1:7; 19:11-16; 22:7,12,20. O livro do Apocalipse, portanto, retrata a igreja de Jesus Cristo como salva, segura em Cristo, e destinada para uma glória futura – embora ainda sujeita a sofrimento e perseguição enquanto o noivo demora.

Pelo fato de a tensão entre o já e o ainda-não ser um aspecto tão importante da escatologia Neotestamentária, vamos continuar a explorar mais algumas de suas implicações para nossa vida e pensamento de hoje.
(1) Esta tensão já-ainda-não caracteriza o que geralmente denominamos de os “sinais dos tempos”. Por “sinais dos tempos” entendemos eventos que têm de acontecer antes que Cristo retorne, incluindo coisas tais como a pregação missionária da Igreja, a conversão de Israel, a grande apostasia, a grande tribulação e a revelação do anticristo. Estes sinais serão discutidos, com maior detalhe, mais adiante. Neste momento, entretanto, podemos notar que esses sinais tomam parte da tensão já-ainda-não, uma vez que apontam tanto para o que já aconteceu como para o que ainda está porvir. Todos os “sinais dos tempos” apontam para a primeira vinda de Cristo no passado e apontam, no futuro, para sua segunda vinda. Além disso, estes sinais não devem ser considerados como acontecendo exclusivamente no tempo-final, imediatamente antes da volta de Cristo, mas devem ser vistos como ocorrendo ao longo de toda a era entre a primeira e a Segunda Vinda de Cristo [2]. Embora estes sinais deixem lugar para um cumprimento culminante futuro, imediatamente antes da volta de Cristo [3], eles são de tal natureza que serão encontrados ao longo da história da igreja no Novo Testamento.
Como ilustração deste ponto, considere a pregação missionária do Evangelho. Jesus disse:

“E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim.” (Mt 24:14)

Esta pregação do Evangelho, por isso, é tanto uma marca distintiva da era na qual vivemos agora, como um sinal apontando no futuro para a Segunda Vinda de Cristo. A pregação missionária do Evangelho é um sinal que nos lembra a vitória de Cristo no passado e que antecipa seu retorno glorioso.
(2) A Igreja está envolvida nesta tensão. Uma vez que a igreja é uma comunidade de pessoas que foram redimidas por Cristo, ela é uma comunhão daqueles que não obstante serem um povo novo, são também pessoas imperfeitas. Não se deve perder de vista nem a novidade nem a imperfeição. A pregação, ensino, cuidado pastoral e disciplina praticados na igreja, portanto, sempre têm de levar esta tensão em conta. O povo de Deus não deve ser tratado como aqueles que ainda estão totalmente depravados, “completamente incapazes de qualquer bem e inclinados para todo mal” [4], mas devem ser tratados e considerados como novas criaturas em Cristo. Ao mesmo tempo, porém, deve ser lembrado que o povo de Deus é ainda imperfeito. Por causa disso, os cristãos deveriam lidar um com o outro como pecadores perdoados. Deve sempre haver uma prontidão para aceitar e perdoar irmãos que pecaram contra nós. Além disso, qualquer correção que deva ser feita, deveria acontecer no Espírito de Gl 6:1:

“Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão; olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado.”

(3) Esta tensão deveria ser um incentivo para um viver cristão responsável. A tensão contínua entre o  e o ainda-não implica que, para o cristão, a luta contra o pecado continua ao longo da presente vida. Mas esta é uma luta para se engajar, não na expectação da derrota, mas na certeza da vitória. Nós sabemos que Cristo desferiu um golpe mortal no reino de Satanás e que a condenação de Satanás é certa.
Nós já somos novas criaturas em Cristo, habitadas pelo Espírito Santo, que nos fortifica de modo que realmente podemos “mortificar os maus feitos do corpo” (Rm 8:13, NVI). Mas não podemos atingir a perfeição sem pecado nesta vida. Nossa imperfeição contínua, entretanto, não nos dá uma desculpa para viver irresponsavelmente, nem implica que devamos renunciar a tentar fazer o que agrada a Deus. Na verdade, nós apenas podemos continuar a viver com o ainda-não à luz do já.
Uma compreensão da força que é nossa, através da habitação do Espírito Santo, deveria nos motivar a viver uma vida cristã positiva e vitoriosa. A fé na transformação contínua que em nós é operada pelo Espírito (2ª Co 3:18) deveria nos estimular em nossos esforços. Acima de tudo, deveríamos ser encorajados pela convicção de que nossa santificação é, em última instância, não uma conquista nossa mas dom de Deus, uma vez que Cristo é a nossa santificação (1ª Co 1:30).
Podemos considerar mais um aspecto nesta conexão. A relação entre o  e o ainda-não não é de antítese absoluta, mas antes de continuidade. O primeiro é o antegozo do último. O Novo Testamento ensina que há uma conexão estreita entre a qualidade da nossa vida presente e a qualidade da vida além-túmulo. Para indicar o modo pelo qual a vida presente esta relacionada com a vida vindoura o Novo Testamento utiliza figuras tais como o prêmio, a coroa, o fruto, a colheita, o grão e a espiga, semeadura e ceifa (Gl 6:8) [5]. Conceitos como estes nos ensinam que temos uma responsabilidade de viver para o louvor de Deus como o melhor de nossa capacidade mesmo enquanto continuamos a não alcançar a perfeição.
(4) Nossa auto-imagem deveria refletir esta tensão. Por auto-imagem quero designar o modo como uma pessoa olha para si mesma, seu conceito acerca de seu próprio valor ou falta de valor. O fato de o cristão se encontrar na tensão entre o que já possui em Cristo e o que ele ainda não desfruta, implica que ele deveria ver a si mesmo como uma pessoa nova imperfeita. Mas a ênfase deveria cair sobre a novidade, não sobre a contínua imperfeição. Colocar a ênfase na imperfeição em vez de na novidade é viver no Novo Testamento de cabeça para baixo. Conforme Oscar Cullmann comenta, para o crente cristão nos dias de hoje o  excede em peso ao ainda-não [6].
Porque continuamos a viver na tensão escatológica entre o  e o ainda não, nós realmente não vemos ainda nossa novidade em Cristo em sua totalidade. Nós vemos muito em nossas vidas que se assemelha mais ao velho que ao novo. Por causa disso, fica um sentido no qual esta novidade sempre é um objeto de fé. Mas a fé no fato de que somos novas criaturas em Cristo é um aspecto essencial de nossa vida cristã.
Embora a tensão permaneça, é também verdadeiro que a vida cristã é marcada por crescimento espiritual. O novo homem que vestimos, como cristãos, está continuamente sendo renovado:

“Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos, e vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou.” (Cl 3:9,10)

O cristão, portanto, deveria olhar para si mesmo como uma nova pessoa em Cristo, pessoa que está sendo progressivamente renovada pelo Espírito de Deus [7].

(5) Esta tensão nos ajuda a entender o papel do sofrimento na vida dos crentes. “Por que sofre o justo?” é uma questão tão velha quanto o livro de Jó. Uma resposta a esta questão é que o sofrimento, na vida dos crentes, é uma manifestação concreta do ainda-não. O sofrimento ainda acontece na vida de cristãos porque ainda não foram eliminados todos os resultados do pecado. O Novo Testamento ensina que “através de muitas tribulações, nos importa entrar no Reino de Deus” (At 14:22). Paulo conecta nosso sofrimento presente com nossa glória futura (Rm 8:17,18). E Pedro aconselha seus leitores a não se surpreender “com o julgamento penoso que estais sofrendo como se algo estranho estivesse acontecendo a vós” mas antes “alegrai-vos em participar dos sofrimentos de Cristo” (1ª Pe 4:12, 13, NVI).
O episódio das almas debaixo do altar, em Apocalipse (6:9-11), também nos ajuda a entender o problema do sofrimento na vida dos crentes. João ouve as almas daqueles que foram mortos por causa da palavra de Deus, clamando:

“Ó Soberano Senhor […] até quando não julgas nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (v. 10)

A pergunta sobre porque Deus permite injustiças tão terríveis acontecerem sobre a terra, requer uma resposta. E a resposta é dada em dois estágios. Primeiro, àqueles que clamavam foram dadas vestiduras brancas – um símbolo óbvio de vitória. Depois, é-lhes dito para descansar um pouco mais, até que o número de seus conservos, que deveriam ser mortos, seja completado (v. 11). Assim, o povo de Deus continuará a sofrer injustiça até o fim desta era – contudo, aqueles que sofrem e morrem por causa de Cristo receberão suas vestiduras brancas da vitória.
Por causa disso, temos de ver o sofrimento dos crentes à luz do eschaton, ocasião em que Deus enxugará todas as lágrimas dos nossos olhos e quando não mais haverá sofrimento e morte (Ap 21:4). Entrementes, sabemos que Deus tem seus propósitos para permitir a entrada do sofrimento na vida de seu povo. Paulo nos ensina, em Romanos 5, que o sofrimento produz perseverança, a perseverança produz caráter e o caráter produz esperança (vs. 3,4). E o autor de Hebreus, embora admitindo que a disciplina e o sofrimento não parecem ser agradáveis na hora em que são experimentados, nos conta que tal disciplina mais tarde “produz uma colheita de justiça e paz para aqueles que por ela foram treinados” (12:11, NVI) [8].
(6) Nossa atitude para com a cultura está relacionada com esta tensão. H. Richard Niebuhr em seu livro Christ and Culture (Cristo e a Cultura) [9], aponta várias abordagens para com a cultura que foram utilizadas por diversos grupos cristãos no passado, variando desde rejeição total até aceitação acrítica da produção cultural de não-cristãos, com numerosas posições intermediárias. Aplicando o conceito da tensão já-ainda-não à questão das conquistas culturas, tanto de crentes como de descrentes, ajudaremos a lança alguma luz sobre este eterno problema.
É geralmente entendido, por muitos cristãos, que o relacionamento entre o mundo presente e a nova terra que está porvir é de descontinuidade absoluta. A nova terra, pensam muitos, cairá como uma bomba em nosso meio. Não haverá nenhum tipo de continuidade entre este mundo e o vindouro; tudo será totalmente diferente.
Esta compreensão, porém, não faz jus ao ensino das Escrituras. Há tanto continuidade como descontinuidade entre este mundo e o vindouro [10]. O princípio aqui envolvido está bem expresso em palavras que foram freqüentemente usadas por teólogos medievais: “A graça não destrói a natureza mas a restaura” [11]. Em sua atividade redentora, Deus não destrói as obras de suas mãos mas as limpa do pecado e as aperfeiçoa, a fim de que possam finalmente alcançar o alvo para o qual ele as criou. Aplicado a este problema, esse princípio significa que a nova terra que aguardamos não será totalmente diferente da terra atual, mas será uma renovação e glorificação da terra na qual vivemos agora.
Já observamos, anteriormente, figuras neotestamentárias que sugerem que aquilo que os crentes fazem nesta vida terá conseqüências na vida porvir – figuras como as da semeadura e ceifa, grão e espiga, amadurecimento e colheita. Paulo ensina que uma pessoa pode construir sobre a fundação da fé em Cristo, com materiais duráveis como ouro, prata ou pedras preciosas, de modo que na consumação sua obra possa sobreviver e ele possa receber uma recompensa (1ª Co 3:10-15). O livro do Apocalipse fala acerca das obras que seguirão aqueles que morreram no Senhor (14:13). Fica claro, de passagens como esta, que aquilo que os cristãos fazem para o Reino de Deus nesta vida tem significado também para o mundo porvir. Em outras palavras, há uma continuidade entre o que é feito para Cristo agora e o que deveremos desfrutar no futuro – uma continuidade expressa no Novo Testamento em termos de galardão ou gozo (1ª Co 3:14; Mt 25:21,23).
Mas, que dizer acerca da produção cultural dos não-cristãos? Devemos simplesmente renegar tais produtos como sem valor porque não foram produzidos por crentes e não foram conscientemente dedicados à glória de Deus? Os cristãos que tomam esta atitude, falham em apreciar a obra da graça geral de Deus no mundo atual, através da qual mesmo homens não-regenerados são capacitados para fazer contribuições válidas para a cultura mundial.

“Toda verdade é de Deus; consequentemente, se homens iníquos disseram qualquer coisa que seja verdadeira e justa, não devemos rejeitá-la; porque ela veio de Deus [12]. Sempre que depararmos com estes assuntos em escritores seculares, deixemos essa admirável luz da verdade que neles brilha nos ensinar que a mente do homem, embora decaída e pervertida em sua inteireza está mesmo assim vestida e ornamentada com os excelentes dons de Deus. Se consideramos o Espírito de Deus como a única fonte da verdade, nunca devemos rejeitar a verdade em si, nem menosprezá-la pareça como for, a não ser que desejemos desonrar o Espírito de Deus. Porque, em tendo os dons do Espírito em pouca estima, desprezamos e rejeitamos o próprio Espírito” [13].

Com relação à cultura não-cristã, portanto, temos de lembrar que o soberano poder de Cristo é tão grande que ele pode governar em meio a seus inimigos, e fazer com que aqueles que não o conhecem façam contribuições à ciência e à arte, contribuições que servirão à sua causa. Os poderes despertos pela ressurreição de Jesus Cristo estão ativos no mundo de hoje! O governo soberano de Cristo sobre a história é tão maravilhosos que ele pode fazer até seus inimigos louvá-lo, embora eles o façam involuntariamente. E quando lemos, no livro do Apocalipse, que os reis das nações da terra deverão trazer sua glória para a nova Jerusalém (21:24,26), concluímos que haverá alguma continuidade até entre a cultura do mundo atual e a do mundo vindouro.
A tensão entre o  e o ainda-não, portanto, implica em que não devemos desprezar o que o Espírito de Deus capacitou a homens nãoregenerados produzirem, mas devemos avaliar todos esses produtos culturais à luz dos ensinos da Palavra de Deus. Podemos usar em gratidão qualquer coisa de valor da cultura deste mundo, desde que a usemos com discriminação.
Como cristãos, acima de tudo, temos de fazer o que melhor podemos para continuar a produzir uma cultura genuinamente cristã: literatura cristã, arte, filosofia, uma abordagem cristã da ciência, e assim por diante. Mas não devemos esperar alcançar uma cultura totalmente cristã deste lado do eschaton. Uma vez que ainda não somos o que devemos ser, todos os nossos esforços em estabelecer uma cultura cristã serão apenas uma aproximação. Para dar certeza, embora haja uma continuidade entre o mundo presente e o mundo por vir, a glória do mundo vindouro superará em muito a glória do mundo presente. Porque:

“Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam.” (1 Co 2:9 NVI)

Resumindo o que foi desenvolvido neste capítulo, concluímos que toda a nossa vida cristã deve ser vivida à luz da tensão entre o que já somos em Cristo e o que um dia esperamos ser. Olhamos, no passado, com gratidão, para a obra concluída e a vitória decisiva de Jesus Cristo. E olhamos para o futuro com ansiosa antecipação da Segunda Vinda de Cristo, quando instauraremos a fase final de seu Reino glorioso, e traremos à plenitude a boa obra que ele começou em nós [14].

[2] Cp. G Berkower, Return, Cap. 8, e veja adiante, pp.
[3] Isto se aplica particularmente à manifestação do anticristo. Embora desde a primeira vinda de Cristo sempre tenha havido anticristos no mundo (veja 1 Jo 2.18,22), o Novo Testamento também nos ensina a aguardar um anticristo único e final no futuro (veja 2 Ts 2.3-10).
[4] Heidelberg Catechism (Catecismo de Heidelberg), questão 8.
[5] Veja H. Berkhof, Christelijk Geloof, Nijkerk: Callenbach, 1973, p.511.
[6] O Cullmann, Salvation, p.183.
[7] As implicações da nossa fé cristã para nossa auto-imagem estão mais exploradas em minha obra: The Christian Looks at Himself (O Cristão Olha para Si Mesmo).

[8] Sobre o assunto do sofrimento e martírio na vida dos crentes, veja Berkouwer, Return, pp. 115-122.
[9] Nova York: Harper, 1951.
[10] Para um maior desenvolvimento desse pensamento, e de sua relação com o problema do tempo e da eternidade, veja Berkof, Meaning, pp 180-193.

[11] “Gratia non tollit sed reparat naturam”.
[12] Commentary on the Epistles to Timothy, Titus, and Philemon (Comentário das Epístolas a Timóteo, Tito e Filemon), transcr W. Pringle, Grand Rapids: Eerdmans, 1948, de Tito 1.12, pp. 300, 301.
[13] Institutas, ed., J. T. McNeill trasncr., F.L.Battles, Phidadelphia: Westminster, 1960) II, 2, 15.
[14] Para uma discussão mais ampliada da tensão do “já-ainda-não”, veja Berkouwer, Return, pp.20-23, 110-115, 121, 122, 138, 139; Cullmann, Salvation, pp. 32, 172-185; Hamilton, The Holy Spirit and Eschatology in Paul (O Espírito Santo e a Escatologia em Paulo), pp. 39, 87; W. Manson, “Eschatology in the New Testament” (A Escatologia em o Novo Testamento), pp. 7, 9-13; Ridderbos, Paul, pp. 230, 231, 249-252, 267-277; Shires, The Eschatology of Paul in the Light of Scholarship (A Escatologia de Paulo à luz da Erudição Moderna), pp.18, 162, 163, 169, 226.

 

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