Da Educação e do ET

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SÓCRATES: Desculpe incomodá-lo, mas o que você está fazendo?

PETER PRAGMA: Mas que pergunta idiota! Eu estou lendo um livro. Ou melhor, estava, até você me interromper. Você não vê?

SÓCRATES: Oh, eu freqüentemente sou incapaz de ver aquilo que os outros vêem, e vejo coisas que os outros não conseguem ver.

PETER: Não entendi.

SÓCRATES: Eu vi que você linha um livro nas mãos, de fato, mas não o vi lendo o tal livro.

PETER: Mas, do que você está falando?

SÓCRATES: Você está segurando o livro nas suas mãos, não está?

PETER: Mas, é claro.

SÓCRATES: E eu posso ver suas mãos.

PETER: E então?

SÓCRATES: Mas, você lê o livro com as mãos?

PETER: É claro que não.

SÓCRATES: Com o quê, então?

PETER: Com meus olhos, é claro.

SÓCRATES: Hum, eu acho que não.

PETER: Eu acho que você é maluco.

SÓCRATES: Talvez, mas eu estou dizendo a verdade, e acho que posso prová-lo. Diga-me, um cadáver pode ler um livro?

PETER: Não…

SÓCRATES: Mas, um cadáver pode ter olhos, não pode?

PETER: Sim.

SÓCRATES: Então, não são somente os olhos que lêem.

PETER: Ah, a mente então. Está satisfeito agora?

SÓCRATES: Não.

PETER: De algum modo. já esperava que você fosse dizer isso.

SÓCRATES: Eu não posso ver a sua mente, posso?

PETER: Não.

SÓCRATES: Então, eu não posso ver quando você está lendo.

PETER: Acho que não. Mas que coisa estranha de se dizer!

SÓCRATES: Estranha mas verdadeira. Sabe, a verdade é amiúde mais estranha que a ficção… Qual delas você prefere?

PETER: Sabe, você também é mais estranho que a ficção, homenzinho.

SÓCRATES: Isso é porque eu sou verdadeiro, também.

PETER: Quem é você, aliás?

SÓCRATES: Sou o Sócrates.

PETER: Claro que é. E eu sou o E.T.

SÓCRATES: Prazer em conhecê-lo, E.T.

PETER: Meu nome é Peter Pragma.

SÓCRATES: Você tem dois nomes?

PETER: Como assim?

SÓCRATES: Você disse que seu nome era E.T.

PETER: E você disse que seu nome era Sócrates.

SÓCRATES: Porque este é meu nome. Eu tenho esse estranho hábito de dizer as coisas tais como elas são.

PETER: O que você quer de mim?

SÓCRATES: Você me permitiria prosseguir com meus questionamentos idiotas por mais um momento?

PETER: Achei que você já tivesse obtido sua resposta.

SÓCRATES: Não aquela para a minha verdadeira pergunta. Veja, quando eu perguntei o que você estava fazendo, eu quis dizer, na verdade, por que você está fazendo isso? 

PETER: Estou estudando para minha prova de amanhã.

SÓCRATES: E por que você está fazendo isso?

PETER: Sabe, você soa como uma criancinha.

SÓCRATES: Obrigado.

PETER: Não quis fazer exatamente um elogio.

SÓCRATES: Eu não ligo, apenas responda à minha questão por favor.

PETER: Estou estudando para passar em meu concurso, é claro.

SÓCRATES: E por que você quer fazer isso?

PETER: Mais uma questão idiota! Você não cresce, não?

SÓCRATES: Deixe-me contar-lhe um segredo, Peter: não existem sujeitos crescidos. Mas você ainda não respondeu à minha “pergunta idiota”.

PETER: Para tirar um diploma, é claro.

SÓCRATES: Quer dizer que todo o tempo, esforço e dinheiro que você investe na sua educação aqui, na Estadual do Desespero, é para comprar esse pedaço de papel?

PETER: É assim que as coisas são.

SÓCRATES: Acho que você pode supor qual será minha próxima pergunta.

PETER: Estou pegando o jeito. Acho que isso é uma espécie de doença contagiosa.

SÓCRATES: Qual e a próxima questão, então?

PETER: Você vai me perguntar porque é que eu quero um diploma.

SÓCRATES: E você responderá…

PETER: Mais uma questão idiota. Todo mundo sabe para que serve um diploma.

SÓCRATES: Eu não sou “todo mundo”. Então, você poderia por favor me contar?

PETER: Um diploma universitário é um bilhete de entrada para um bom emprego. Sabe o quão difícil está o mercado de trabalho hoje em dia? Por onde você esteve nos últimos anos?

SÓCRATES: Você não acreditaria seu eu lhe dissesse. Mas devo colocar somente mais uma questão, ou melhor, duas: o que é “um bom trabalho” e porque você quer um?

PETER: Dinheiro, é claro. Essa é a resposta para ambas as questões. Para todas as questões, talvez.

SOCRATES: Entendo. E o que você quer fazer com todo o dinheiro ganho?

PETER: Você disse que as suas duas últimas perguntas eram as últimas.

SÓCRATES: Se você quiser partir, não posso prendê-lo aqui. Mas, se prosseguirmos nossa investigação um passo adiante, poderemos descobrir algo novo.

PETER: O que você acha que encontraremos? Um novo mundo?

SÓCRATES: É bem provável. Um novo mundo do pensamento. Você quer vir comigo? Gostaria de desbravar os pântanos de nossas incertezas? Ou prefere ficar em casa, no conforto da sua caverninha?

PETER: Por que eu devo me torturar com essas perguntas idiotas vindas de um homenzinho estranho? Eu deveria estar estudando para meu exame.

SÓCRATES: Porque isso seria proveitoso para você. Uma vida sem auto-exame não vale a pena ser vivida, sabe.

PETER: Já ouvi isso em algum lugar… Nossa! Essa é uma das citações que podem cair no meu exame de amanhã. Quem foi que disse isso, aliás?

SÓCRATES: Fui eu quem disse. Você não ouviu?

PETER: Não, digo, quem a disse originalmente?

SÓCRATES: Fui eu, lhe garanto. Agora podemos continuar nosso percurso?

PETER: Aliás, que proveito você vai tirando disso, Sócrates?

SÓCRATES: Não, Peter, a questão é que proveito você está tirando disso. É esse o tópico que estamos explorando. Agora podemos continuar a fazer com que sua vida se torne um pouco menos irrefletida e um pouco mais digna de ser vivida?

PETER: Tudo hem. Mas por pouco tempo.

SÓCRATES: Então, você responderá à minha última questão?

PETER: Eu esquecí qual era a questão.

SÓCRATES: Para quê você precisa de dinheiro?

PETER: Para tudo! Tudo aquilo que eu quero custa dinheiro.

SÓCRATES: Por exemplo?

PETER: Você sabe o quanto custa sustentar uma família hoje em dia?

SÓCRATES: Qual seria a maior despesa no sustento de uma família, na sua opinião?

PETER: Provavelmente enviar os filhos à faculdade.

SÓCRATES: Entendo. Vamos rever o que você disse. Você está lendo esse livro para estudar para o seu exame, para que você possa ser aprovado nele e no seu curso, para se formar e obter um diploma, ter um bom trabalho, ganhar um monte de dinheiro, criar uma família e enviar seus filhos à faculdade.

PETER: Isso.

SÓCRATES: E por que eles irão para a faculdade?

PETER: Pela mesma razão que eu estou aqui. Para ter bons empregos, é claro.

SÓCRATES: E, então, poder enviar seus filhos à faculdade?

PETER: Sim.

SÓCRATES: Você já ouviu falar na expressão “argumento circular”?

PETER: Não, nunca tive aulas de lógica.

SÓCRATES: Sério? Eu nunca teria adivinhado…

PETER: Você está me provocando.

SÓCRATES: Sério?

PETER: Sou um homem prático. Não ligo para a lógica, apenas para a vida.

SÓCRATES: Então, talvez possamos chamar o que você está fazendo de “viver em círculo”. Você já se colocou a aterrorizante pergunta: para que serve todo esse círculo?

PETER: Hummm… Ninguém nunca me incomodou com essa pergunta antes.

PETER: Bem, eu não estou me esforçando somente para enviar meus filhos à faculdade. Também estou trabalhando para o meu próprio bem. Isso não é circular, é?

SÓCRATES: Não saberemos antes de examinar, não é? Diga-me, o que é “o seu próprio bem”?

PETER: Que quer dizer?

SÓCRATES: Que benefícios você espera que o dinheiro de um emprego bem remunerado lhe traga?

PETER: Todo tipo de coisas. Uma boa vida. Jogos é diversões. Lazer.

SÓCRATES: Entendo. E agora você está abrindo mão da diversão é dos jogos em prol de um estudo sério para que possa ser aprovado nos exames e obter seu diploma.

PETER: Exato. Isso se chama “gratificação adiada”. Eu poderia estar assistindo a um jogo de futebol agora mesmo, ou jogando pôquer. Mas eu estou guardando meu tempo no banco. É um investimento para o futuro. Veja, quando eu estiver instalado num bom emprego, eu tomarei minhas próprias decisões.

SÓCRATES: E ai, então, você terá o lazer e poderá assistir aos jogos de futebol ou jogar pôquer quando queira. É isso que você quer dizer?

PETER: Exato.

SÓCRATES: Por que você simplesmente não faz essas coisas agora mesmo?

PETER: O quê?

SÓCRATES: Por que você trabalha ao invés de jogar, se tudo o que você quer fazer é jogar? Você está trabalhando agora para poder, daqui a alguns anos, ter dinheiro o suficiente para bancar seu lazer e para jogar. Mas você pode jogar agora mesmo. Então, por que tomar a estrada longa é ardua, se você já está em casa? Parece se tratar de mais um circulo que retorna ao seu ponto de partida, e no qual você já se encontra agora mesmo.

PETER: Você está me dizendo para largar a escola e dar o fora?

SÓCRATES: Não, estou dizendo que você deve descobrir uma boa razão para estar aqui. Não acho que você a tenha encontrado, ainda. Podemos continuar procurando?

PETER: Tá certo, senhor guru – ou senhor espertalhão, seja lá o que você for. Diga-me, por que eu devo estar aqui? Qual o valor da faculdade? Você tem todo um sermão guardado na manga, não é?

SÓCRATES: É isso que você espera de mim?

PETER: Claro. Você simplesmente desmantelou todas as minhas respostas para poder vender a sua, não foi?

SÓCRATES: De fato, não. Não sou um guru, sou apenas um filósofo, um amante e perseguidor da sabedoria, esse objetivo tão divino e tão esquivo.

PETER: O que você quer dc mim, então?

SÓCRATES: Quero contagiá-lo com o filosofar.

PETER: Então, você não vai me dar as respostas?

SÓCRATES: Não. Acho que a mais valiosa lição que eu posso lhe ensinar é como se tornar seu próprio professor. Não é essa uma das coisas que você aprende aqui? Não é esse um dos maiores valores da educação universitária? Nenhum dos seus professores nunca lhe ensinou isso? O que foi feito do meu grande invento, afinal?

PETER: Eu acho que nunca olhei para a educação sob esse ponto de vista.

SÓCRATES: Não é tarde para se começar.

PETER: Estamos no dia dc hoje, Sócrates – ou quem quer que você seja. Eu estou muito ocupado hoje. Sério.

SÓCRATES: Muito ocupado para entender porque você está tio ocupado? Muito ocupado com afazeres para poder entender o porquê dos seus afazeres?

PETER: Olha, talvez possamos continuar essa conversa num outro momento. Eu tenho coisas mais importantes para fazer do que esse negócio…

SÓCRATES: Filosofia. Esse negócio é filosofia. Para qual exame você está estudando, a propósito?

PETER: Bom, na verdade é um exame de filosofia.

SÓCRATES: Entendi. Acho que você pode estar em perigo, então.

PETER: De modo algum. Fu decorei as notas do professor. Tenho todas as respostas.

SÓCRATES: E nenhuma das perguntas. Qual o valor de suas respostas, então?

PETER: Eu simplesmente não posso perder meu tempo com perguntas desse tipo.

SÓCRATES: Pois você precisa estudar filosofia?

PETER: Sim. Adeus, homenzinho estranho.

SÓCRATES: Adeus, E.T. Espero que um dia você consiga escapar desse seu círculo vicioso e encontrar o caminho para casa.

 

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